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DAS MÃOS, DA FÉ, DOS MILAGRES
(© Patrícia Evans)
(© Patrícia Evans)
.
Como de repente faltasse ar e luz. Uma estrela minguando o brilho e um túnel sem final. A solução que não existe. Existe algo sem solução? Meu cérebro derrete enquanto eu busco o ar que me falta na fumaça do cigarro e
_Tem fósforo?
Ele olha pra mim como olharia Bogart.
_Não fumo.
Puta que pariu! Agora essa onda de gente saudável que não fuma, não bebe, não mente! Esse mundo tá uma merda. Um monte de gente que se tranca em academias de musculação e sua e geme e cansa. Que farei com as minhas celulites se não tenho a menor vontade de esmagá-las em uma série de 250 agachamentos diários? Muito bem...ele não fuma.
_O que você faz então?
_Como?
_Sim, porque todos nós encontramos uma forma de auto destruição...então, qual a sua?
_Ah, sim...Eu ando de motocicleta com walkman.
_Duas formas então. Andar de moto e andar de moto com walkman...interessante...não fuma mas é mais auto-destrutivo que eu.
_Você se acha auto-destrutiva?
_Algumas vezes até conscientemente, como é o caso do cigarro.
Ele mexia com as mãos de um jeito interessante. Era quase como um prestidigitador. Rápido. Meus olhos quase não acompanhavam sua habilidade manual. Acho que era porque não sabia muito bem como ordenar seus vocábulos...então, desenvolvera uma linguagem única com as mãos. Será que tocava assim tão bem? Será que sobre minha pele essa habilidade renderia arrepios múltiplos? Bobagem...ele não fumava e pior! não se levantara em busca de um fósforo. Aquelas mãos provavelmente nunca haveriam de me tocar. Ele andava de moto, ou seja, era um moleque crescido. Hum...será que além de não saudável agora eu era preconceituosa? Será que porque meu ex namorado colecionava motos e porque não deu certo eu agora condenava todos os motoqueiros do mundo como se eu devesse crucificar a humanidade pelo erro de um? Será que eu me tornara uma espécie de Jesus às avessas? Ou será que a vida em sua tortuosa maneira me levara à impaciência de um não Jó? Oh, sim...a vida... De repente eu me lembrei que a vida andava me dando umas lambadas muito fortes e que eu acordava cansada todo dia. Eu lembrei que depois da primeira grande queda eu permaneci no chão. Tentei levantar diversas vezes mas a cada esboço de um leve movimento, a vida, ela mesma, extenuava as minhas forças. Eu lembrei que vida passara a ser um substantivo abstrato que significava nada além de sua própria abstração. É, eu estava começando a ficar mesmo de má vontade com motoqueiros e afins. Mas eu sabia que era eu o problema. Era o cansaço...nada além do cansaço. Voltei para as mãos :
_Você é descendente de italianos?
_Não. E você?
_Uma mistura grande. Portugueses, brasileiros, ingleses, alemães e franceses. Vê? Podendo ter escolhido tanto lugar, Deus escolheu o Brasil pra mim. Aliás, Deus está me saindo melhor que a encomenda.
_Deus?
Tenho pra mim, que Deus é o melhor comediante de todos os tempos. E isso dito pela atriz de comédias tantas vezes exaltada e premiada que sou é um elogio e tanto. Quando eu estava pra nascer Deus me deu duas opções; ser artista no Brasil ou viver no rigoroso inverno da Sibéria. Eu lembro que ri às custas Dele. Muito fácil optar! Sou atriz, cantora, danço, sapateio e sigo a carreira artística desde os cinco anos de idade. E claro, sou brasileira. Um comentário? A Sibéria deve estar maravilhosa! (...) O que é que tem falar de Deus? Porque o cara das mãos se mostrou tão surpreso ao ouvir Seu nome?
_ Sim! O cara lá de cima...o Pai, o todo Poderoso...
_Eu sei quem é Deus! É que falar sobre Deus é difícil...
_Cara, só o fato de você saber quem é Deus já lhe dá toda a liberdade de falar Dele, e, é claro, já o põe à frente de mais que metade da população.
Deus é o sujeito engraçado e inteligente que mora nas nuvens e cujo senso de humor é notável. Por exemplo: Deus nos deu a terra Paraíso, uma única árvore cujo fruto não deveria ser comido, Lúcifer com passe livre por aquelas terras, o livre arbítrio e um filho disposto a pagar por nossos pecados. Agora pare e pense se colocar esses ingredientes em um único lugar em um mesmo espaço de tempo não é coisa de gênio? Veja bem que comédia de situação Deus nos proporcionou! Alguns poderiam julgar isso como uma piada divina de mau gosto, não? Não! O final há de ser sempre justo se o protagonista for Deus! E isso me lembra da fé. Que coisa maravilhosa é a fé! Que coisa inexplicavelmente obsessiva a fé! E que coisa tão facilmente abalada a fé...
_Sabe, eu gosto mesmo da forma com que você movimenta as suas mãos.
_É mesmo? Nunca reparei nelas. E nunca ninguém me disse nada sobre isso. O que há de extraordinário em minhas mãos?
_ Bem, mãos servem pra tantas coisas, que é difícil julgar o que é extra em seus movimentos ordinários. Entendeu? Extra ordinário...
Eu lembro que ri sem graça por ter tentado explicar o extraordinário a um motoqueiro que dirigia ouvindo seu walkman. E então, a coisa do extarordinário me levou de volta ao momento sem luz pelo qual passo, porque são as coisas fora do padrão, que nos chamam a atenção. E nem sempre o extraordinário é uma coisa boa, às vezes é algo assim...como a morte ou a própria.
_Você sabe aquelas coisas que acontecem com a gente, que parece que nunca mais a gente vai conseguir se levantar? O que nos deixa em letargia, sem ação, em inércia? Coisas que saem da rotina e nos balançam?
_Sei. Mas a gente no final acaba se levantando.
_Sempre?
_Você viu " O casamento do meu melhor amigo?" Tem uma cena em que a Julia Roberts está desesperada e o camareiro do hotel diz pra ela, que a avó dele sempre falava uma frase, quando ele estava se sentindo sem saída. Sabe qual era a frase? "Isto também vai passar! "
Eu não acreditei que ele citara " O casamento do meu melhor amigo" . Não acreditei! Além de não fumar, de ser motoqueiro, ele citava " o casamento do meu melhor amigo" , como se citasse um filósofo existencialista da melhor qualidade. Tive ânsia de vômito. Ele disse ' Isto também vai passar!" O que responder diante disto? Como mostrar naturalidade no lugar do desprezo? Cacete! Eu estava mal! Eu odiava o sujeito, porque citara Julia Roberts! Sei lá! Cada um tem o direito de citar quem quiser! Merda! Eu me sentia uma merda porque eu me via cada vez mais tentando encaixar pessoas em parâmetros estabelecidos a partir de um ideal irritante de perfeição! E que perfeição era essa? Então o cara era imperfeito? Uma grande babaca que eu era... Mas e daí? Me sentir uma merda não me fazia melhor em nada, não me fazia perdoar o cara das mãos! Apaguei o cigarro pela metade no cinzeiro abarrotado e foi mais uma luz que eu matei.
_É...
_Eu nunca mais esqueci esta frase.
Pára. Pára. Cala a boca. Pára. Pára. Pára. Eu não vou aguentar. Vou vomitar. Para, para, para, para! Esmaguei o cigarro mais ainda tentando extinguir seu último fôlego; a última brasa que o oxigênio alimentava, a última fumaça que o papel em combustão realizava. Será que ele acreditava em milagres? É claro que ele acreditava! Ele tinha o perfil do babaca burguês a quem a vida deu sempre sem tirar facilitando a crença e o milagre! O palhaço na minha frente era digno de uma fé cega. Aliás, fé que é fé, para ser fé de fato, tem que ser cega. Dizer fé cega é ser redundante. Uma vez eu lembro, eu tive fé. Eu tinha tanta fé que agradecia as bençãos antes mesmo de ter sido abençoada. A vida com fé é mais fácil de ser levada. A confiança de ter alguém que sempre está por nós, que sempre nos ampara e que nunca nos nega um favor é o verdadeiro ópio! O milagre é a onda. Hahahahahaha. E pensar que bastou um pedido negado para que a minha fé começasse a ser questionada. E quando se questiona uma fé é porque não há fé. E sem fé, que luz? Que solução? Que milagre? Isto também vai passar? Ao cacete! Cadê a minha fé? Eu quero a minha fé de volta! Eu quero a minha burguesia! Eu quero...
Eu lembro que voltei a pensar nas mãos, porque conhecia bem essa falta de ar, que me dava sempre antes da garganta ser esmagada e as águas saltarem dos olhos. Eu voltei a pensar nas mãos antes que o substantivo abstrato vida percebesse que eu estava fraca ainda que fingisse o contrário. Pensei nas mãos porque não podia me deixar exposta a uma nova porrada. E depois...as mãos dele eram realmente notáveis com aqueles movimentos incessantes que rompiam o ar feito primeira bailarina. Eram mãos de quem acreditava. Eram uns movimentos de quem...ah! Sei lá.
Sabe, dirigir uma moto assim...ouvindo um walkman é sinal de muita fé, não é? Você tem que estar muito certo que nada vai acontecer, que nenhum carro vai buzinar pra você sair da frente, que nenhum guarda vai apitar os tais dos silvos longos e breves avisando que é para parar e que ninguém vai gritar " Olha a criança! " .
Que aconteceria se eu amarrasse as suas mãos? Se eu as amputasse? Se eu as comesse ao molho madeira?
_Me diz! O que me faz presa fácil destas suas mãos?
_Mas afinal, o que há de tão diferente nas minhas mãos?
_ Deixa pra lá. É só que, sei lá, você faz, a cada palavra, uns dez movimentos diferentes com elas!
_Ah! É isso?
Começou a rir do jeito que riem os que percebem que mistérios de fato são apenas mal entendidos...
_Sim! É isso...
_ Ah! Só mais uma coisa que passou...É que eu nasci surdo e mudo.
E me cravou uma faca no peito me causando uma chaga que infeccionou...e era tanto pus que o coração gangrenou. Mas isto também vai passar!
. Como de repente faltasse ar e luz. Uma estrela minguando o brilho e um túnel sem final. A solução que não existe. Existe algo sem solução? Meu cérebro derrete enquanto eu busco o ar que me falta na fumaça do cigarro e
_Tem fósforo?
Ele olha pra mim como olharia Bogart.
_Não fumo.
Puta que pariu! Agora essa onda de gente saudável que não fuma, não bebe, não mente! Esse mundo tá uma merda. Um monte de gente que se tranca em academias de musculação e sua e geme e cansa. Que farei com as minhas celulites se não tenho a menor vontade de esmagá-las em uma série de 250 agachamentos diários? Muito bem...ele não fuma.
_O que você faz então?
_Como?
_Sim, porque todos nós encontramos uma forma de auto destruição...então, qual a sua?
_Ah, sim...Eu ando de motocicleta com walkman.
_Duas formas então. Andar de moto e andar de moto com walkman...interessante...não fuma mas é mais auto-destrutivo que eu.
_Você se acha auto-destrutiva?
_Algumas vezes até conscientemente, como é o caso do cigarro.
Ele mexia com as mãos de um jeito interessante. Era quase como um prestidigitador. Rápido. Meus olhos quase não acompanhavam sua habilidade manual. Acho que era porque não sabia muito bem como ordenar seus vocábulos...então, desenvolvera uma linguagem única com as mãos. Será que tocava assim tão bem? Será que sobre minha pele essa habilidade renderia arrepios múltiplos? Bobagem...ele não fumava e pior! não se levantara em busca de um fósforo. Aquelas mãos provavelmente nunca haveriam de me tocar. Ele andava de moto, ou seja, era um moleque crescido. Hum...será que além de não saudável agora eu era preconceituosa? Será que porque meu ex namorado colecionava motos e porque não deu certo eu agora condenava todos os motoqueiros do mundo como se eu devesse crucificar a humanidade pelo erro de um? Será que eu me tornara uma espécie de Jesus às avessas? Ou será que a vida em sua tortuosa maneira me levara à impaciência de um não Jó? Oh, sim...a vida... De repente eu me lembrei que a vida andava me dando umas lambadas muito fortes e que eu acordava cansada todo dia. Eu lembrei que depois da primeira grande queda eu permaneci no chão. Tentei levantar diversas vezes mas a cada esboço de um leve movimento, a vida, ela mesma, extenuava as minhas forças. Eu lembrei que vida passara a ser um substantivo abstrato que significava nada além de sua própria abstração. É, eu estava começando a ficar mesmo de má vontade com motoqueiros e afins. Mas eu sabia que era eu o problema. Era o cansaço...nada além do cansaço. Voltei para as mãos :
_Você é descendente de italianos?
_Não. E você?
_Uma mistura grande. Portugueses, brasileiros, ingleses, alemães e franceses. Vê? Podendo ter escolhido tanto lugar, Deus escolheu o Brasil pra mim. Aliás, Deus está me saindo melhor que a encomenda.
_Deus?
Tenho pra mim, que Deus é o melhor comediante de todos os tempos. E isso dito pela atriz de comédias tantas vezes exaltada e premiada que sou é um elogio e tanto. Quando eu estava pra nascer Deus me deu duas opções; ser artista no Brasil ou viver no rigoroso inverno da Sibéria. Eu lembro que ri às custas Dele. Muito fácil optar! Sou atriz, cantora, danço, sapateio e sigo a carreira artística desde os cinco anos de idade. E claro, sou brasileira. Um comentário? A Sibéria deve estar maravilhosa! (...) O que é que tem falar de Deus? Porque o cara das mãos se mostrou tão surpreso ao ouvir Seu nome?
_ Sim! O cara lá de cima...o Pai, o todo Poderoso...
_Eu sei quem é Deus! É que falar sobre Deus é difícil...
_Cara, só o fato de você saber quem é Deus já lhe dá toda a liberdade de falar Dele, e, é claro, já o põe à frente de mais que metade da população.
Deus é o sujeito engraçado e inteligente que mora nas nuvens e cujo senso de humor é notável. Por exemplo: Deus nos deu a terra Paraíso, uma única árvore cujo fruto não deveria ser comido, Lúcifer com passe livre por aquelas terras, o livre arbítrio e um filho disposto a pagar por nossos pecados. Agora pare e pense se colocar esses ingredientes em um único lugar em um mesmo espaço de tempo não é coisa de gênio? Veja bem que comédia de situação Deus nos proporcionou! Alguns poderiam julgar isso como uma piada divina de mau gosto, não? Não! O final há de ser sempre justo se o protagonista for Deus! E isso me lembra da fé. Que coisa maravilhosa é a fé! Que coisa inexplicavelmente obsessiva a fé! E que coisa tão facilmente abalada a fé...
_Sabe, eu gosto mesmo da forma com que você movimenta as suas mãos.
_É mesmo? Nunca reparei nelas. E nunca ninguém me disse nada sobre isso. O que há de extraordinário em minhas mãos?
_ Bem, mãos servem pra tantas coisas, que é difícil julgar o que é extra em seus movimentos ordinários. Entendeu? Extra ordinário...
Eu lembro que ri sem graça por ter tentado explicar o extraordinário a um motoqueiro que dirigia ouvindo seu walkman. E então, a coisa do extarordinário me levou de volta ao momento sem luz pelo qual passo, porque são as coisas fora do padrão, que nos chamam a atenção. E nem sempre o extraordinário é uma coisa boa, às vezes é algo assim...como a morte ou a própria.
_Você sabe aquelas coisas que acontecem com a gente, que parece que nunca mais a gente vai conseguir se levantar? O que nos deixa em letargia, sem ação, em inércia? Coisas que saem da rotina e nos balançam?
_Sei. Mas a gente no final acaba se levantando.
_Sempre?
_Você viu " O casamento do meu melhor amigo?" Tem uma cena em que a Julia Roberts está desesperada e o camareiro do hotel diz pra ela, que a avó dele sempre falava uma frase, quando ele estava se sentindo sem saída. Sabe qual era a frase? "Isto também vai passar! "
Eu não acreditei que ele citara " O casamento do meu melhor amigo" . Não acreditei! Além de não fumar, de ser motoqueiro, ele citava " o casamento do meu melhor amigo" , como se citasse um filósofo existencialista da melhor qualidade. Tive ânsia de vômito. Ele disse ' Isto também vai passar!" O que responder diante disto? Como mostrar naturalidade no lugar do desprezo? Cacete! Eu estava mal! Eu odiava o sujeito, porque citara Julia Roberts! Sei lá! Cada um tem o direito de citar quem quiser! Merda! Eu me sentia uma merda porque eu me via cada vez mais tentando encaixar pessoas em parâmetros estabelecidos a partir de um ideal irritante de perfeição! E que perfeição era essa? Então o cara era imperfeito? Uma grande babaca que eu era... Mas e daí? Me sentir uma merda não me fazia melhor em nada, não me fazia perdoar o cara das mãos! Apaguei o cigarro pela metade no cinzeiro abarrotado e foi mais uma luz que eu matei.
_É...
_Eu nunca mais esqueci esta frase.
Pára. Pára. Cala a boca. Pára. Pára. Pára. Eu não vou aguentar. Vou vomitar. Para, para, para, para! Esmaguei o cigarro mais ainda tentando extinguir seu último fôlego; a última brasa que o oxigênio alimentava, a última fumaça que o papel em combustão realizava. Será que ele acreditava em milagres? É claro que ele acreditava! Ele tinha o perfil do babaca burguês a quem a vida deu sempre sem tirar facilitando a crença e o milagre! O palhaço na minha frente era digno de uma fé cega. Aliás, fé que é fé, para ser fé de fato, tem que ser cega. Dizer fé cega é ser redundante. Uma vez eu lembro, eu tive fé. Eu tinha tanta fé que agradecia as bençãos antes mesmo de ter sido abençoada. A vida com fé é mais fácil de ser levada. A confiança de ter alguém que sempre está por nós, que sempre nos ampara e que nunca nos nega um favor é o verdadeiro ópio! O milagre é a onda. Hahahahahaha. E pensar que bastou um pedido negado para que a minha fé começasse a ser questionada. E quando se questiona uma fé é porque não há fé. E sem fé, que luz? Que solução? Que milagre? Isto também vai passar? Ao cacete! Cadê a minha fé? Eu quero a minha fé de volta! Eu quero a minha burguesia! Eu quero...
Eu lembro que voltei a pensar nas mãos, porque conhecia bem essa falta de ar, que me dava sempre antes da garganta ser esmagada e as águas saltarem dos olhos. Eu voltei a pensar nas mãos antes que o substantivo abstrato vida percebesse que eu estava fraca ainda que fingisse o contrário. Pensei nas mãos porque não podia me deixar exposta a uma nova porrada. E depois...as mãos dele eram realmente notáveis com aqueles movimentos incessantes que rompiam o ar feito primeira bailarina. Eram mãos de quem acreditava. Eram uns movimentos de quem...ah! Sei lá.
Sabe, dirigir uma moto assim...ouvindo um walkman é sinal de muita fé, não é? Você tem que estar muito certo que nada vai acontecer, que nenhum carro vai buzinar pra você sair da frente, que nenhum guarda vai apitar os tais dos silvos longos e breves avisando que é para parar e que ninguém vai gritar " Olha a criança! " .
Que aconteceria se eu amarrasse as suas mãos? Se eu as amputasse? Se eu as comesse ao molho madeira?
_Me diz! O que me faz presa fácil destas suas mãos?
_Mas afinal, o que há de tão diferente nas minhas mãos?
_ Deixa pra lá. É só que, sei lá, você faz, a cada palavra, uns dez movimentos diferentes com elas!
_Ah! É isso?
Começou a rir do jeito que riem os que percebem que mistérios de fato são apenas mal entendidos...
_Sim! É isso...
_ Ah! Só mais uma coisa que passou...É que eu nasci surdo e mudo.
E me cravou uma faca no peito me causando uma chaga que infeccionou...e era tanto pus que o coração gangrenou. Mas isto também vai passar!
ABOUT HANDS, FAITH, MIRACLES( © Patrícia Evans)
As if suddenly there were no more air or light. A waining star and an endeless tunnel. The non existing solution. Is there something without solution? My brain melts while I look for the missing air in the smoke from the cigar and
_Do you have matches?
He looks at me the way Bogart would look
_Don't smoke
Mother fucker. Now it's fashionable to be healthy, to not smoke, drink or lie. This world is shit. A thousand people locked in a gym while they sweat, moan and get tired. What will I do with my hundred celulites if I don't want to crush them by with a 200 abdominal sequence per day? Ok... he doesn't smoke.
_What do you do, then?
_What?
_Yes, because eveyone has a self-destructuive way, what's yours?
_Oh, sure...I ride my motorcycle wearing the walkman _Two ways, then. Riding a motorcycle and riding a bike wearing headphones...interesting... don't smoke but you are even more self destructive than I am.
_Do you think you are self-destructive? _ Sometimes even consciously like with cigars.
He moved his hands in an interesting way. Like a juggler. Fast. My eyes couldn't follow his manual abilities. I think it was because he didn't know how to put words in order so, he had developed a unique language using his hands. Would his touch also be unique? Would it be that once on my skin this skill would provoke warm feelings? Would I shiver when he touched me? Nah... he didn´t smoke and worse! didn't stand up for matches. Those hands would probably never touch me. He rode a motorcycle, so, he was just a grown kid. Damn. What was happening to me now? Hmmm, besides being unhealthy, would I now be prejudiced as well? Or had life in its tortuous way led me to a non Gandhi impatience? Oh, yes... life...Suddenly I've remembered that life was hiting me so hard I was waking up tired every morning. I remembered that after the first big fall, I stayed on the ground. I've tried to get up many times, but life itself drained my strength. Somehow, life became an abstract noun, and nothing more than its own abstraction. Yeah...I was beginning to lose my taste for riders and stuff. But I knew the problem was me. It was the exhaustion...nothing but the exhaustion I went back to his hands:
_Do you have Italian blood?
_ No. And you?
_ A big mess. Portugueses, brazilians, english, germans and french. See? So many places and God has picked Brazil for me By the way, God is turning out better than expected. _God?
I think God is the best comedian of all. And coming from a highly regarded actress, that's a real compliment. When I was to be born , God gave me two options; be an artist in Brazil or to live in the rigorous cold of Siberia. I remember I laughed at him; too easy to pick up an option! So, I'm an actress, singer, dancer, I tap and I' ve had an artistic career since I was 5. Oh, and I am brazilian. Wanna know? Siberia must be wonderful! (...) Why is there a problem talking about God. Why was the hands' guy so surprised to hear His name?
_Yes! The Man upstairs. The Heavenly Father, the Almighty.
_ I know who God is! But it's hard to talk about God... _ Man, just the fact you know who He is gives you freedon to talk about Him and put you ahead half population!
God is the brilliant guy who lives in the sky and has a terrific sense of humor.For example: God gave us Eden, and only one tree that we shouldn't touch. Lucifer came and went as he pleased. We had free will and God's son was ready to pay for our sins. Now stop and think about it. Putting these ingredients in the same place was sheer genius, wasn't it? Take a look at the sitcom God allowed us to live. Some could judge it as a bad divine joke. No! The end must always be happy if the protagonist is God. And it reminds me about faith. What a wonderful thing faith is! What an inexplicable and obsessive thing faith is. And what an easily affected thing...
_ Know what? I like the way you move your hands.
_Really? I've never noticed. And no one has ever mentioned it before. What's so extraordinary?
.
_Well . . . hands have so many uses, it's hard to say what's 'extra' in their ordinary movements. Got it? Extra ordinary...
Funny, trying to explain extraordinary to a biker who used to drive and listen to a walkman at the same time. Then, the extraordinary took me back to the dim moment I was passing through, something outside the usual pattern, something that caught my attention. 'Extraordinary' isn't always good. Sometimes it's like death, or even death istelf.
_ Know these things that happen to us that we think we will never get up happen again? Things that take us to letargy, things that stop us in our tracks? Things out of routine?
_Yes. But in the end we always bounce back.
_Always? _ Have you seen " My best friend's wedding" ? There's a scene where Julia Roberts is really desperate when the room service guy looks at her and tells her something his grandma used to say him when he was nervous. You know what it was? "This too shall pass".
I couldn't believe he had quoted "My best friend's wedding".Couldn't believe it! Besides he didn't smoke and he was a biker, he had quoted "My Best Friend's Wedding" like he was quoting an existentialist philosopher! I felt nausea sick. He said "This too shall pass." . What could I say? How could I show unaffectedness instead of disdain? Shit! I was ill ! I hated the guy because he had quoted Julia Roberts! I don't know! Anyone has the right of quoting anybody they want!. Damn! I felt like shit because I saw myself trying to fit people into boxes of perfection. And what perfection was that? So the guy wasn't perfect? I was a big asshole! So what? Feeling like shit didn't make me a better person; it didn't even make me forgive the hands guy! I stubbed out the cigarette in the ash tray and it was one more light I killed.
_Yeah... _I have never forgotten this quote.
Stop. Stop. Shut up. Stop. Stop. Stop. I can't handle it. I'll throw up. Stop. stop, stop, stop! I crushed the cigar even harder trying to stop its last breath, its last flicker, its last smoke, the last living coal the oxigen was feeding, the combustion. Would it be that he belived in miracles? Course he did! He had that stupid burgeois view of life as part faith and part miracle. Life is always giving him everything he needed without taking anything back. Burgeois. The stupid guy in front of me was worthy of blind faith. By the way, faith, to be faith, must be blind. By saying blind faith I am becoming redundant. Once, I remember, I had faith. I had so much faith I used to give thanks for blessings before I even received them. Life is easier with faith. The confidence of having someone who's always there for us , comforting us, never denying us a favor is the real opium! Miracles are what makes us get high. Hahahahahaha. And to think that all I needed to start questioning my faith was to have a single wish denied. And when we call in question faith it's because there is no faith. And without faith, what light? What solution? What miracle? "This too shall pass" ? To hell! Where's my faith? I want my faith back! I want my burgeois! I want
_...
I remember I came back thinking about the hands because I knew well this gasping for breath sensation that came before water starts jumping through my eyes. I started thinking about the hands again before that abstarct noun noticed I was still weak yet I pretended I was not. I thought about the hands because I didn't want to leave myself exposed to a new hit. After all his hands were so beautiful making those endless movements that cut the air as if they were the prime ballerina. Those were hands from who used to believe. Those were movements from whom...ha! Never mind... -- Know, riding a bike like that... listening to a walkman it shows a lot of faith. You have to be sure that nothing is going to happen, no car will honk , no guard cop will blow those short or long whistles wanting you to stop and no one will shout " watch out for the child!". -- What would happen if I tied up your hands? What if I amputated them ? What if I ate them with woody sauce?
_Tell me what makes me a so easy prey to your hands?
_But after all, what is so different in about my hands?
_Never mind. It's just that, I don't know, you make ten different movements to each word!
_Oh, that?
He started to laugh like someone who knows that mysteries are simply misunderstandings.
_Yes...that's it...
_ It's just that I was born deaf-mute.
And he plunged a knife in my chest. The wound became so infected that my heart started rotting. But "This too shall pass". .
.
.
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