PORTA GIRATÓRIA
( © Patrícia Evans)
Eu não sei quanto tempo fiquei parada antes de resolver olhar a autópsia... "Todo mundo sempre tem um bom motivo para ser mau"...acho que era sobre isso que aquele sujeito que matou o cara, que apontava a arma pra cabeça da refém , estava dizendo quando foi preso. E essa não é uma frase dele, mas de um dos meus filósofos favoritos; o mesmo que disse que Deus estava morto. Filósofos são pessoas engraçadas, não nos obrigam a concordar com eles nunca, mas até que uma nova argumentação, tão brilhante quanto a deles, surja, nós concordamos. Eu concordo com o que o sujeito, que estava sendo preso, disse. Ele matou e estava sendo preso, mas peraí, ele tinha mesmo um bom motivo para matar, não é? Foram vinte minutos de desespero dentro do banco. Tinha umas vinte e cinco pessoas lá dentro na hora em que o cara entrou pela porta giratória sem ficar preso, com uma glock embaixo da camisa. Eu fico presa por causa de um chaveiro, mas a glock passou. Ele chegou perto do segurança, que fica ao lado da porta que não travou com a arma e o rendeu. Simples e
rápido... se eu fosse o segurança eu também me renderia. Quem não? Então ele agora tinha duas armas; a glock e a do segurança que eu não consegui identificar. Acho que só eu vi isso, porque todos continuaram calmos e no mesmo lugar até que ele gritou: "Todo mundo pro banheiro!" . A reação de muitos foi imediata, mas a maioria ficou como que em choque, sem saber pra onde olhar ou que movimento fazer... as coisas por alguns segundos não andaram, o mundo parou como se alguém tivesse puxado a corda do ônibus. Daí por diante foi tudo simples: ele trancou aos empurrões quem coube e quem não coube no apertado banheiro e ficou com nós quatro como reféns. O segurança, com um ar humilhado, tentava nos fazer sentir seguros conversando com o sujeito, que apontava nervoso a arma pro caixa fazendo ele colocar o dinheiro numa sacola azul, velha, de nylon, com o emblema de uma agência de turismo, mas é claro, ele não respondia, apenas continuava apontando, com a outra mão, para nós três inertes, congelados pelo frio do ar condicionado e do medo. Gaveta por gaveta foi aberta e todo o dinheiro foi enchendo o saco azul que pesou e arrebentou uma das alças. Eu lembro, que foi neste instante imprevisto, quando algumas notas caíram no chão, que o sujeito disparou o primeiro tiro com a glock que a porta giratória, que trava muletas, deixou passar. O caixa tinha abaixado para apanhar algumas notas e por detrás do balcão a gente não o via mais. Depois do tiro eu fiquei esperando vê-lo se levantar mais amedrontado que quando se abaixara, mas foi esquisito, que ele não se reergueu, nós não o vimos mais, não ouvimos gemidos e nenhum som além do tiro e do "porraaaaaaaaaaaaa!!!!!" que o assaltante gritou. Então ele mesmo se abaixou para apanhar o resto de dinheiro e a sacola e foi nessa hora, que nós duas tivemos a mesma idéia e nos atiramos para a porta e nos jogamos juntas naquele espaço pequeno e nos amassamos num dos compartimentos, que dando meia volta no eixo, menos que um metro talvez, nos deixaria livres. É uma porta dessas de segurança que travam quando existe alguma ameaça, sabe? É uma dessas portas que rodam e que têm sensores para metais. Uma dessas portas giratórias que têm um pino, que desce travando o movimento, quando duas pessoas entram juntas no mesmo compartimento, assim, exatamente como nós duas, no desespero, entramos. Travadas pela mesma porta, que deixou entrar o cara com a arma, que matou um dos caixas, nós ficamos sem ação e eu olhei pra ela e a cara dela era de um terror que eu nunca tinha visto antes, saltavam águas dos olhos dela e ela não conseguia falar mas eu entendia que pedia socorro, eu entendia que ela pedia clemência e que tivesse piedade dela, o Senhor. Eu não sei o que fiz, eu não lembro, eu só lembro da rapidez dos segundos e fica na minha memória, em flash, o segurança apontando o controle para a porta e o pino levantando, o assaltante atirando no segurança, a porta destravando rápido, eu encontrando a rua , a porta travando de novo, ela ficando presa, as mãos dela espalmadas no vidro à prova de balas, o sujeito carregando a bolsa pesada chegando por trás dela, eu assistindo de fora, a glock disparando de novo, o sangue explodindo no vidro, os olhos dela arregalados pra mim, a boca entreaberta, a porta destravando, os dois caindo, ela morta, ele ropeçando nela, o dinheiro se espalhando, a multidão correndo, polícia por tudo quanto era canto, câmeras de TV e ninguém fazendo nada, nenhuma reação, só gritos, muitos gritos. São flashs ligeiros, são imagens rápidas feito slides e até hoje eu não sei da força que me fez ficar, não entendo a fraqueza que não me deixou correr. Ainda tinha um dinheiro no chão, que dessa vez ele ignorou, quando voou sobre mim e me agarrou com uma gravata apertada. O sujeito que segurava a bolsa azul, cujo cheiro de mofo eu sentia de perto agora, enquanto me apertava o pescoço e pressionava, com a outra mão, a arma contra meu crânio começou a gritar que me matava e que estourava os meus miolos se não deixassem ele passar e foi andando comigo, eu sendo arrastada assim meio tonta da falta de ar, até que alguém apareceu pelo lado dele, o lado da mão que segurava a glock, eu não sei como, eu não podia ver esse lado e deu um tiro em seu ouvido. Eu ouvi o barulho do tiro, mas o barulho mais alto foi o de ossos quebrando e o estalido do sangue jorrando imediatamente em cima de mim, morno e grosso como um caldo, que me inundou. Hoje eu vi pela televisão o que aconteceu depois que a polícia atravessou a rua, atirou, deixando manco de uma perna e levou preso o cara, que matou o assaltante, que apontava a arma pra minha cabeça. Hoje eu pude ver que a sacola azul não estava mais na cena, pude ver o corpo dela no chão com a cabeça espatifada e os olhos arregalados pra mim em close, o pessoal do banheiro chorando, um transeunte defendendo o assaltante dizendo que era um problema social e que todos nós tínhamos culpa, que ele devia estar com fome e desesperado e deu pra ouvir ,do microfone enfiado na boca do cara, que matou o produto social faminto, a citação de um dos meus filósofos prediletos... e aí, enquanto fazem a autópsia do corpo da minha filha que ainda tem os olhos arregalados, eu penso que ele, o meu filósofo está completamente certo: o assaltante estava com fome, o pedestre que o matou queria salvar um inocente, o policial que atirou no pedestre tentava imobilizar um assassino e quem levou a sacola deve ter tido também seus bons motivos pra isso. Enquanto não surgir nenhuma filosofia que entre em conflito com esta, eu concordo que toda maldade tem um bom motivo para ser cometida. Ah! Pela T.V. eu vi também, que enquanto eles retiravam os corpos empacotados em um saco plástico, a porta não travou nem uma vez.
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