
HERÉTICO
( © Patrícia Evans)
Depois que Ele subiu ao Pai
Em nome d'Ele arranquei escalpo,
apedrejei, julguei, condenei.
Em nome d'Ele roubei, invadi,
eu destruí, ignorei, torturei,
depois que Ele subiu ao Pai.
Comi Seu corpo em hóstia.
Bebi Seu sangue em cálice.
Em minha mesa, Páscoa posta,
Judas nem escondeu a face.
O pão não dividi em partes;
guardei-o para meu deleite.
O vinho, o degustei metade,
a outra avinagrou com a tarde.
(Restou o misturar com azeite)
Chega-me o espectro da foice
e nunca nada me foi tão dorido
quanto deste cavalo o coice
destro, apocalíptico.
Como sonhar com absolvição?
Não foi ignorante que O usei
a camuflar a maldade que perpetuei
a cada falsa comunhão...
E agora, a extrema unção!
O badalar ao passar do féretro.
O Judas era cada minha traição
e o inferno é meu por mérito.
Em nome d'Ele, dizem,
é que meu corpo em febre arde,
que todas as pedradas me atingem,
e como todo néscio covarde,
pelos pecados que me afligem,
meus joelhos por minh'alma dobram.
Em nome d'Ele me comparei a Ele
e agora são trevas que a mim se voltam,
mas se O fui, por que só a Ele abriu-se luz?
Há diferença entre sangue e pus;
Enquanto por minhas vestes jogam
esculpem em pedra um "aqui jaz"
entretanto
quando Ele subiu ao Pai
ninguém ouviu os sinos dobrarem
como por mim eles agora choram.
(Lá se paga o que aqui se faz)
O que me dá conforto em essa hora;
não estou só em minha tamanha estupidez:
cristãos morrem pelas razões que morro agora
todos os dias, pelo menos uma vez.
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